Colunistas
10/02/2009 - 11h10 | Atualizada em 11/02/2009 - 06h26
O retorno dos que não foram,
A medalha de quem não devia ter ido e
uma toupeira que vai fundo
Márcia Denser*
A sacada da semana foi o título A volta dos que não foram do jornalista Maurício Thuswohl da Carta Maior ao comentar as eleições de José Sarney e Michel Temer para as presidências da Câmara e do Senado – algo como o eterno retorno do mesmo.
Ou seja, a confirmação no poder da apoteose do atraso na figura impretérita do oligarca supremo Sarney que, sem Tonhão Malvadeza, tornou-se senhor absoluto do âmbito paleontogeográfico da alma feudal, situado pré-historicamente entre o Piorão (Piauí com Maranhão) e o Piorserá (de Piauí com Ceará), conjugado ao fisiologismo flexibilizado protourbanóide de Temer. José Sarney e Michel Temer representam a volta de quem, na verdade, jamais foi embora.
Eis a síntese do nosso subcapitalismo desigual e combinado, reunindo as iniquidades do atraso às mais avançadas desumanidades, e todas buscando representar o irrepresentável: a burguesia nacional que já não manda; o capital financeiro, que é o obstáculo ao desenvolvimento e que já se desligou de qualquer representação de classe e cujos interesses promovem a exclusão – esta é a contribuição genuinamente brasileira à práxis política global, oh, yes. A união ideal do Inútil ao Desagradável, e a galera, a população, o peaple, a “sociedade civil”, composta de espectadores-consumidores, não dando a mínima e achando bom, noves fora, yes. Estamos exportando conformismo de ponta! O eterno gigante bobo adormecido com seu chocalho multinacional.
Nosso sub-horizonte eleitoral “avança” em “marcha a ré para trás”, sinalizando que, em 2010, uma parte do PMDB (mais conhecido como Pomos a Mão no Dinheiro do Brasil – vezenquando Zé Simão dá uma dentro) vai apoiar Serra e outra, Dilma Rousseff ou outro candidato do Planalto, indicando, nos dois casos, o vice na chapa governista. Sendo fiel a si mesmo, o PMDB apostará no candidato que der mais ibope, mas seja como for, uma coisa é certa: o candidato governista à sucessão de Lula terá que engolir um adversário político da direita mais insidiosa, ligada a interesses privados absolutamente inconfessáveis, a mesma que se sustenta há quinhentos anos colada ao núcleo do poder federal e está pouco se lixando com as mudanças programáticas e ideológicas ocorridas na Presidência da República.
Já “a medalha de quem não devia ter ido” fica por conta da condecoração que Tony Blair recebeu em janeiro de George W. Bush, pelo apoio dado às guerras de Washington. Realmente não valeu à pena ter ido, durante anos, bajular Bush de forma tão histérica, porque uma reles medalha foi tudo o que ganhou pela puxassaquice pânica. E mais: recebeu a “Medalha da Liberdade” somando-se aos piores, como John Howard, ex-premier da Austrália, e Álvaro Uribe, presidente colombiano. O que Bush premiou foi a submissão aos interesses dos EUA, uma vez que Blair e Howard apoiaram a invasão do Iraque. Quanto a Uribe, mantém tropas americanas na Colômbia e sonha torná-la “a Israel da América do Sul”.
No Brasil, a mídia golpista também sonha com a volta da submissão incondicional aos EUA. Adepta da vassalagem a qualquer preço (o que é uma pechincha, afinal, mantendo sua posição de sócio menor do capitalismo), a direita brasileira segue tal diretriz com a desculpa de que o melhor é JAMAIS se aproximar de países em litígio com os americanos, tipo Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba, com o pretexto de que eles nada têm a nos oferecer, podendo, ao mesmo tempo, prejudicar nossas “boas relações” com o Big Brother. Essa direita é nostálgica do alinhamento automático, sem contrapartida imperial.
Também receberá sua medalha no tempo devido.
E a toupeira?
É o título do novo livro que Emir Sader lança esta semana
A América Latina, onde o neoliberalismo nasceu (no Chile e na Bolívia), mais se estendeu e encontrou solo fértil, tornou-se, ironicamente, o espaço de maior resistência e construção de alternativas a esse mesmo neoliberalismo. A que corresponde essa mudança tão radical, que o continente jamais viveu em prazo tão curto, em toda a sua história, com tantos governos que podem ser caracterizados como progressistas (de esquerda ou de centro-esquerda)?
Segundo o autor, tudo isso se dá exatamente no momento em que o capitalismo se revela mais injusto do que nunca. Quanto mais liberal, mais cruel ele se torna, expropriando direitos elementares como o direito ao trabalho formal. Hoje, o capital subordina e mercantiliza tudo, da educação à água, passando pela saúde. Justamente quando concentra mais renda e propriedade, quando subordina a produção à especulação, quando marginaliza e discrimina a maior parte da população do globo, promovendo guerras e destruição ecológica, o capitalismo assume sua face mais triunfante, pois reina sozinho após o desaparecimento do socialismo da agenda histórica contemporânea.
No entanto, é o próprio capitalismo que se encarrega de trazer à pauta os temas da luta anticapitalista. Enquanto houver capitalismo, o socialismo permanecerá no horizonte histórico como alternativa, sua negação e superação dialética. Diz ele: “Este livro quer dar voz à toupeira. No começo do século XXI, só ela pode traçar o fio da história a partir das formas concretas assumidas pela luta anticapitalista contemporânea.”
A revolução nunca se repete da mesma maneira. Perseguir os itinerários da toupeira – os rumos da história oculta – é reencontrar os fios que articulam, contraditoriamente, o real e o futuro.
Tatiana Barbosa Sócrates (31/03/2006 - 21h04)
Quem vota no SIM pensa no coletivo, cobrando políticas de segurança pública e rejeitando soluções individualistas. Quem vota pela proibição do comércio de armas acredita que a segurança deve ser alcançada para todos, e não para quem pode pagar, e tampouco por quem deseja exercer a autodefesa privada, em detrimento da segurança dos demais. Quem diz SIM exerce sua cidadania, hoje e sempre, por uma cultura de paz.
Maria Rita Khel (12/02/2009 - 15h04)
Oi Márcia, bom artigo!Desde 2006 eu, que votei no Lula, já temia que o Brasil viesse a ser governado pelo PMDB, com a conivêncie de nosso cordial presidente. Que quadro desolador!Um beijo, M.Rita.
Menalton João Braff (12/02/2009 - 14h55)
Emocionante, Márcia. Simplesmente emocionante sua crônica de hoje.absMenalton
Olavo Lévere (13/02/2009 - 13h46)
O senhor, se não me engano, ocupou um cargo durante o governo FHC a frente da biblioteca nacional. É possível que tenha feito um bom trabalho, isso não está em questão. Mas nem por isso deixou de estabelecer uma cumplicidade com um certo poder, e emprestar o seu nome para ilustrar esse mesmo poder. E o que este poder reinventou no Brasil? Ao investir nas privatizações e terceirizações, reinventou o próprio passado de fornicação do público pelo privado. Que resultou disso? 400 fuzilamentos? Creio que uma infinidade muito maior de miséria, marginalização social e exclusão. Isso conduz ao fato do país ter hoje a polícia mais violenta do mundo. Em especial no seu estado, o Rio de Janeiro. O senhor não sente nenhuma gota de responsabilidade por isso? Então nos diga, o que está fazendo diante de quadro estarrecedor para inventar alguma coisa? Esmurrando a figura de Che? Esburrando bolhas de saliva entre uma recepção e outra? Pelo amor de deus, Che é tão importante para o mundo hoje quanto Madonna, isto é, um produto da indústria do mass media e nada mais. Produto vendido em filme americano e nada mais. Aconselho o senhor a dar umas voltas pelas ruas do centro da cidade do Rio, pelo aterro do flamengo, e contar o número de mendigos e de viaturas policias novinhas em folha. Por falar nesse tema, o que o senhor acha da estética neoclássica do Caveirão? Valia apena virar patrimônio histórico e ser estampado em camisetas e posters? Seria um jeitinho legal de reinventar o futuro? Quanto ao caso Battisti, que é exatamente onde o senhor quer marcar a pontuação com seu comentário, sendo a alusão a Che apenas uma escada para chegar ao indigitado, saiba que o governo brasileiro não peca por excesso mas por timidez. Mas já é alguma coisa, uma vez que é melhor que a convardia e a busca de sintonia evangelista com a mídia dominante.
Affonso Romano de Sant'Anna (12/02/2009 - 16h57)
Uma entrevistadora cubana, em Miami, deu uma verdadeira prensa no ator portoriquenho Benício del Toro, ao entrevistá-lo durante o lançamento do filme "El Che". Foi uma verdadeira tourada. Isto está no youtube httpwww.youtube.comwatch?vIZGTV6FbBXM. O ator ficou atônito, gaguejou, viu-se numa armadilha da qual não sabia exatamente como sair. Ela mais do que entrevistá-lo, cobrava e acusava-o de ter feito um filme "a favor" de Che. E nisto ela tem razão. O filme é mesmo " a favor", romantiza de novo o personagem fundindo o revolucionário, o mártir, o santo. Ela, por sua vez, era "contra". Como cubana em Miami refletia o ressentimento de outros cubanos dentro e fora da ilha. Era um diálogo difícil, impossível. Ela encostou-o logo num paredão de perguntas e lembrou que só numa prisão em Havana, Guevara mandou fuzilar 400 pessoas. E indagava porque esses e outros fuzilamentos não faziam parte do filme? Certas feridas e ideologias são recidivas. Pareciam estar conversando em 1960. No entanto, 50 anos se passaram. De lá para cá houve o desmascaramento de Stalin por Kruschev daí a pouco acabou a União Soviética, o muro de Berlin ruiu, a guerra fria ficou congelada, a China virou "neo capitalista" sem deixar de ser "velha socialista", os Estados Unidos se afundaram numa crise humilhante, os ditadores militares latino-americanos saíram de moda e foram substituídos por aqueles que eles perseguiam, enfim, vieram os terroristas, os homens e mulheres bombas no Oriente Médio, a aids, a internet e dizem que o mundo vai acabar daqui a pouco não pela bomba atômica, mas num desastre ecológico irreversível. E eu assistia ao embate entre Benício e a entrevistadora atacada, com um olho no passado e outro no presente, torcendo para que saíssem do passado e reinventassem o futuro.Como o século 20 foi um século essencialmente esquizofrênico, que achava que a "verdade" estava ou à "esquerda" ou à "direita", é possível que em várias partes do mundo, os acometidos da enfermidade ideológica que nos assolou ainda se reúnam romântica e clandestinamente. Por exemplo, é possível que antigos nazistas e mussolinistas se encontrem num bar nas montanhas é possível que velhos comunistas se reúnam em torno de uma mesa para falar das lutas e desvarios de ontem. É possível, é até mesmo certo, que muita gente continua encrustrada no passado. E quando surge uma discussão como essa sobre o terrorista italiano Battisti que o ministro Tarso Genro e outros insistem em transformar em herói político, ou então quando se trata de fazer uma reavaliação de Guevara muita gente tem uma recaída ideológica.Sem dúvida deve ter uma maneira mais objetiva de ler a figura do Che, que não seja apenas a do guerrilheiro romântico nem da figura pop que ficou impregnada nas camisetas e posters. Será que vamos ter que esperar que nossa geração desapareça totalmente para que surja alguém ou várias pessoas com a visão mais objetiva sobre os fatos e figuras do século XX? Quando é que vamos nos debruçar sobre os mitos de ontem com outra perspectiva? Quando é que vamos ter um novo olhar sobre o mito da revolução, o mito da vanguarda, o mito do progresso e o mito da modernidade?