11/11/2009 - 23h12

Garota de Ipanema apedrejada

"Falando em marketing: garanta sua vaga na Uniban, ela já vem com linchamento totalmente grátis!"


Que geração é essa, num país cujo verdadeiro hino nacional já foi Garota de Ipanema, que hoje apedreja moralmente uma garota que vem e que passa com um vestido rosa que sequer era a minissaia inicialmente apontada pela imprensa? Que jovens são esses que abrem mão de todo o seu fundamento cultural, pra não dizer humano, em nome do quê mesmo? Dum diploma fajuto pendurado no rabo? Da Unibronco/Unitaliban/Uniesquina? A menos, é claro, que todos sejam viados... mesmo assim, não é desculpa (ainda que São Paulo tenha a maior parada gay do mundo, poderia explicar, não justificar) pra apedrejar moralmente quem quer que seja.
 
Leio no blog do Luís Nassif: “Temos hoje no Brasil mais de 1.200 faculdades de direito, contra 182 nos EUA e mais faculdades de medicina do que toda a Europa (!!!!!!!!!!!!!!!!). Estamos enganando os jovens e seus pais, formando falsos preparados para nada, uma legião de desempregados diplomados: na recente inscrição para emprego de garis no Rio, inscreveram-se 2 mil com curso superior. Esse tipo de estabelecimento existe por todo o Brasil. São universidades caça-níqueis, sem qualquer compromisso real com a educação, porque não são lideradas por educadores de verdade e sim por comerciantes para quem tanto faz escola como posto de gasolina.”

As melhores universidades norte-americanas e europeias não têm fins lucrativos, são fundacionais e rigorosamente avaliadas pelo corpo discente: ninguém investe o futuro dos filhos em estabelecimentos fajutos; nos EUA, é rara a boa universidade com menos de 70 anos de fundação, as grandes têm dois séculos. Na Europa, daí para mais.

Conforme informado pelo Congresso em Foco, já na segunda, 9/11, o deputado Ivan Valente (Psol–SP) e Angela Portela (PT-RR) apresentaram à Comissão de Educação e Cultura (CEC) requerimento de audiência pública exigindo explicações da Uniban sobre os motivos da expulsão da estudante em pauta, cogitando ainda a possibilidade de cassação da licença de ensino da “universidade”.

Mas não devíamos estranhar isso, uma vez que atualmente a Igreja católica condena a criança violada e não o violador, apenas lembrando o acontecido recentemente no Recife. São dois fatos ocorridos no interior dum mesmo contexto histórico-social mas que ressoam perfeitamente afinados com a presente dessolidarização em massa, com o elogio hipócrita da “moral e dos bons costumes”, e tudo isso para quem, cara pálida? Quem ganha com essa atitude neonazi-quakeróide?

Quem ganha com o progressivo e massivo acovardamento moral da sociedade? Com esse puritanismo neocon glacial, excludente e xenófobo, que não tem nada a ver com a cultura brasileira que vem e que passa (porque continua vindo e passando como essa estudante) seu doce balanço a caminho do mar? Hem?

By the way, Caetano Veloso: não ajuda nada ficar declarando que vai votar na Marina que “pelo menos não é analfabeta como o presidente Lula”. Assim você só atira no pé, santa. Se suicida antecipada e culturalmente para sempre. Requiescat in pace.

Idem, ibidem os alunos fascistóides da Uniban.

O fato de a Uniban ter voltado atrás na expulsão significa que o fez unicamente em razão de a repercussão negativa "no mercado" prejudicar o "marketing" da empresa, por temor às represálias jurídicas, sobretudo as do MEC, sem contar as policiais (Delegacia da Mulher) e da Justiça comum, e não por reconhecer ter tomado uma decisão errada. Falando em marketing: garanta sua vaga na Uniban, ela já vem com linchamento totalmente grátis!


Leia ainda:

Caso chega à Câmara 

Uniban revê expulsão de aluna 

Nota em que a Uniban comunicou a expulsão da aluna

Vídeo mostra o constrangimento a que estudante foi submetida

Boteco Sujo, o blog que deu a notícia em primeira mão

Repercussão no Huffington Post (em inglês)

Repercussão no New York Times (em inglês)

 

*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), A Ponte das Estrelas (1990), Toda Prosa (2002 - Esgotado), Diana Caçadora/Tango Fantasma (2003,Ateliê Editorial, reedição), Caim (Record, 2006), Toda Prosa II - Obra Escolhida (Record, 2008). É traduzida na Holanda, Bulgária, Hungria, Estados Unidos, Alemanha, Suiça, Argentina e Espanha (catalão e galaico-português). Dois de seus contos - O Vampiro da Alameda Casabranca e Hell's Angel - foram incluídos nos 100 Melhores Contos Brasileiros do Século, sendo que Hell's Angel está também entre os 100 Melhores Contos Eróticos Universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, é pesquisadora de literatura, jornalista e curadora de Literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

henrique ferreira (16/11/2009 - 14h56)

Saudações Márcia! tudo bem? muito bom o texto, ein! Gostei muito.. o povo tem aprendido a ser cada vez mais hipócrita... acham que estão fazendo vantagem ao equilibrar-se numa perna só e rir de quem não tem perna nenhuma!

pantagruel (13/11/2009 - 11h22)

os talibãs da Uniban não são exceção moral neste país. O caso escandalizou porque foi filmado e divulgado. Até em Ipanema - a suposta meca da liberdade de costumes - eu já vi garotas de topless serem agredidas com areia e xingamentos, depois de cercadas pela turba. E na praia de Copacabana já vi garotões malhados, típicos da praia, gritarem em coro raivoso "viado! viado!" pra um carinha que subiu com trejeitos num palco durante o intervalo de um show. É uma mistura de conservadorismo com provincianismo careta de país periférico e de mentalidade atrasada. E o Caetano está certo, Márcia, Lula é apenas um animador de auditório. Pena que neste país provinciano raros são os artistas e escritores que expressam suas opiniões sinceras em público, por motivos oportunistas.

thiago arrais (13/11/2009 - 10h49)

Marcia, querida, E tem uma coisa: a Uniban (que aliás tem a mesma sigla da União dos Bancos, cuja lógica é parecida) pode até ter recuado sobre a expulsão da Geise, mas seguramente: ela não vai tomar nenhuma medida para punir (muito menos expulsar) a estudantada do linchamento. Por uma simples relação de custo-benefício. Uma alma apedrejada não vale mais, na conta das mensalidades e matrículas, do que as cinquenta, cem, ou mais que lhe lançaram as pedras. A Uniban é a síntese do que se tornou o "Brasil democrático": uma terra grosseira, salteada pela lógica mais rasteira do capital "progressista", que democratiza pela barbárie, pela auto destruição. Não espanta que de FHC pra cá (viva nosso querido Paulo Renato) a educação, absorvendo o neoliberalismo de país subdesenvolvido, tenha se transformado em simples comércio. Você deve ter visto as imagens do vídeo. O lugar é grotesco, como um pavilhão, é vergonhoso que nosso ensino "superior" tenha hoje essa cara. Evidentemente os estudantes deveriam ser punidos, assim como a universidade. Mas os tempos hoje são muito fraquinhos, meu Deus. Saiu a reportagem do protesto dos estudantes da UNB, nus e etc., o que é excelente, mas que me pareceu de uma tal infantilidade: geração crescida vendo Xuxa, acostumada a não pensar, frágil, ilhada, sugada (e eu faço parte dela). Evidente que é tudo mais do que isso, mas o cenário é lamentável. Tanto quanto nosso Caê, torto demais ao não compreender Lula, que é um Tropicalista da política! Virou madame inglesa o nosso baiano? Ou absorveu a pura frivolidade da "corte" carioca, com sua preguiça de pensar, preguiça para com tudo (terão preguiça até quando não sobrar mais nada do Rio de Janeiro?). Nada de novo no front? Beijo! Thiago

Helen (12/11/2009 - 20h43)

...aliás, juntanto esse artigo com o do Mirisola, eu quero dar um viva a histeria coletiva: VIVA!!!

Helen (12/11/2009 - 20h41)

MUITO BOM, MAS MUITO MESMO! Mas o buraco é mais embaixo. O mercado de trabalho hoje demanda acéfalos sem crítica que façam graduação, pós e pós-pós em 2 anos. A mensalidade dessa faculdadezinha também parece que é bem acessível. isso precisa ser pensado. Quem tem grana paga PUC, entra na USP, que não tem se ferra mesmo. Tem outra coisa... Essa moça é uma caricatura das moças-frutas que estes moços "universitários" pensam quando vão ao banheiro. Ela imita, literalmente esta estereótipo de mulher. Isso prá mim é um paradoxo: afinal, eles gostam ou não da fruta? Acho mesmo é que eles não conseguem fazer esse paralelo, falta sinapse. Conselho garotada: mudem urgente de faculdadezinha...

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