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30/10/2009 - 22h42
Planeta favela, o bigue-bangue da pobreza
“A globalização neoliberal e os planos de ajuste estrutural impuseram uma reconfiguração fundamental do futuro da humanidade: em vez de serem focos de prosperidade, as cidades tornaram-se depósito de lixo de uma população excedente”
Eventos recentes têm chamado a atenção para a situação das populações faveladas, e por essa razão chamo a atenção para o livro Planeta Favela, do pesquisador e historiador Mike Davis (São Paulo, Boitempo, 2006), obra fundamental que se constitui em uma tremenda pesquisa – com tabelas, gráficos, estatísticas recentes – sobre o processo de favelização que ocorre paralelamente ao boom da urbanização no mundo todo. Ele diz: “As favelas, apesar de funestas e inseguras, têm um esplêndido futuro. Por um breve período o campo ainda conterá a maioria dos pobres do mundo, mas essa honra às avessas será transmitida para as favelas urbanas por volta de 2035. Dois bilhões de favelados em 2030 é uma possibilidade monstruosa, mas os pesquisadores da ONU advertem que já em 2020 a pobreza urbana do mundo chegará a 50% do total dos moradores das cidades”.
Para Mike Davis, as décadas de 1980 e 1990 assinalam o bigue-bangue da pobreza urbana, principalmente nos países em desenvolvimento da África, Ásia, América Latina, inclusive a Rússia. Aliás, o maior acontecimento dos anos 90 foi a conversão de boa parte do antigo Segundo Mundo – o socialismo de Estado europeu e asiático – em um novo Terceiro Mundo. No início da década de 90, aqueles considerados em extrema pobreza nos antigos “países em transição” dispararam de 14 milhões para 168 milhões: uma pauperização em massa quase instantânea e sem precedentes na história. Segundo pesquisadores do Banco Mundial, anteriormente a taxa não excedia a 6% a 10%; depois, 60% das famílias russas passaram a viver na pobreza.
Desde 1978, o tectonismo violento da globalização neoliberal e os planos de ajuste estrutural não só foram catastróficos como impuseram uma reconfiguração fundamental do futuro da humanidade: em vez de serem focos de crescimento e prosperidade, as cidades tornaram-se depósito de lixo de uma população excedente. Os fatos exógenos que precisavam de ajuste não foram atacados pelo FMI e Banco Mundial, os maiores deles sendo a queda dos preços dos commodities e os juros da dívida, mas todas as políticas nacionais e programas públicos foram cortados. O Plano Baker, de 1985, exigiu sem rodeios que os 15 maiores devedores do Terceiro Mundo abandonassem as estratégias de desenvolvimento conduzidas pelo Estado em troca de tomar novos empréstimos e de continuar participando da economia mundial. E esse era o admirável mundo novo do chamado consenso de Washington.
Por toda parte, o FMI e o Banco Mundial, agindo como delegados dos grandes bancos e apoiados pelos governos Reagan e George H. W. Bush (Bush pai), ofereceram aos países pobres o mesmo cálice envenenado de privatização, desregulação, abertura de mercados, remoção dos controles da importação e subsídios alimentares, obrigação de repor os gastos com saúde e educação e enxugamento do setor público. A dívida foi o viveiro duma transferência de poder sem paralelo dos países do Terceiro Mundo para as instituições de Bretton Woods, controladas pelos Estados Unidos e outros países capitalistas centrais. A equipe profissional do Banco Mundial é o equivalente pós-moderno do serviço público colonial, resume admiravelmente o autor.
Citando The Challenge of Slums (UM-Habitat. Londres, Earthscan, 2003), Davis observa que a causa principal do aumento da pobreza e da desigualdade nas décadas de 80 e 90 foi a retirada do Estado. Ele observa: “Na América Latina, a partir do golpe neoliberal do general Pinochet em 1973, o ajuste estrutural esteve intimamente associado à ditadura militar e à repressão dos movimentos populares. Um dos resultados mais espantosos dessa contrarrevolução hemisférica foi a rápida urbanização da pobreza. Amplos setores da classe média instruída viram-se nas fileiras dos novos pobres. Em alguns casos, a mobilidade ladeira abaixo foi quase tão repentina quanto na África. Mas os mesmos ajustes que esmagaram os pobres e a classe média abriram oportunidades lucrativas para privatizadores, importadores estrangeiros, narcotraficantes, oficiais militares e políticos. O consumo ostentatório chegou a níveis estratosféricos”.
Segundo pesquisas do Human Development Report/2004, em 46 países o povo está mais pobre hoje do que em 1990 e em 25 países há mais gente faminta do que há uma década. Em todo o Terceiro Mundo, uma onda de PAEs e programas neoliberais voluntários aceleraram a demolição do emprego público, da indústria e da agricultura para o mercado doméstico. Davis assinala sinistramente: “A desigualdade global, medida pelos economistas do Banco Mundial na população do mundo todo, atingiu um inacreditável coeficiente de Gini de 0,67 no final do século – o equivalente matemático de uma situação em que os dois terços mais pobres do mundo recebem renda zero e o terço mais alto recebe tudo.”
Próxima coluna, voltamos ao assunto.
*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), A Ponte das Estrelas (1990), Toda Prosa (2002 - Esgotado), Diana Caçadora/Tango Fantasma (2003,Ateliê Editorial, reedição), Caim (Record, 2006), Toda Prosa II - Obra Escolhida (Record, 2008). É traduzida na Holanda, Bulgária, Hungria, Estados Unidos, Alemanha, Suiça, Argentina e Espanha (catalão e galaico-português). Dois de seus contos - O Vampiro da Alameda Casabranca e Hell's Angel - foram incluídos nos 100 Melhores Contos Brasileiros do Século, sendo que Hell's Angel está também entre os 100 Melhores Contos Eróticos Universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, é pesquisadora de literatura, jornalista e curadora de Literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.
Hermano J. Vieira (05/11/2009 - 13h10)
Parabéns Marcia. O seu artigo está excelente, além de ser informativo ele expõe a miséria do neoliberalismo. Este regime capitalista/neoliberal está falido, tão falido que estamos vivenciando o pós crise do novo milênio, onde os estados tiveram que intervir na economia para socorrer os capitalistas de plantão. Precisamos rever este modelo, ele não é sustentável, não distribui riqueza, não respeita a dignidade do ser humano - Direitos humanos previstos na carta da ONU, não respeita o meio ambiente, tem muita corrupçao e ao contrário é centralizador de riquezas nas mãos de poucos à custa da miséria e fome dos milhões de seres humanos que passam fome e vivem em completa miséria neste miserável mundo neoliberal.
"" povo !! (02/11/2009 - 08h22)
" toda esta tragédia,social debita-se a politicos,,como, bush(pai & filho)bush , filho do qual,,lula só faltou senatar em seu colo, com muitos afagos, aqui em nossa américa temos, um débil,, coronel chaves,,que esta criando um abismo de pobreza,, na chavesnezuela,,aqui em terras brasilis,,muito discurso,,pouca ação e muito roubos,,todos de olho no poder em 2010,,é muita insanidade !!
CrYs (31/10/2009 - 10h23)
O que eu vejo que a mesma conservadora classe média lacerdista perdeu o seu rumo. Se despolitizou, se pauperizou e se calou por várias décadas diante do quadro que estamos assistimos hoje em dia. Hoje a mesma classe média conservadora getulista vive enjaulada a procura da ideologia da esquerda ou da direita que aceita a Cultura por R$ 1,00. Essa nesma classe média conservadora que elegeu Collor, FHC e um Sarney da vida bateu palmas e que sente saudades do regime autoritário da década de 60 e de 70. Perdeu o senso da justiça, da participação e da solidariedade. Torcem o nariz quando abrem as janelas de seus apartamentos assistindo o crescimento desenfreado da favelização, da invasão do espaço público, da medicância e dos pivetes. Esta mesma classe média conservadora que envelheceu junto com as suas míseras pensões sem nenhuma opção de vida fechando os olhos deixando a vida correr como em que a sua volta nada tivesse acontecendo. Precisou-se criar um Estatuto para que os seus direitos seja prevalecido. Quanto aos seus deveres enquanto classe média conservadora perdeu a importância do dever a ser cumprido.
CrYs (31/10/2009 - 10h04)
O que eu vejo que a mesma conservadora classe média lacerdista perdeu o seu rumo. Se despolitizou, se pauperizou e se calou por várias décadas diante do quadro que estamos assistimos hoje em dia. Hoje a mesma classe média conservadora getulista vive enjaulada a procura da ideologia da esquerda ou da direita que aceita a Cultura por R$ 1,00. Essa nesma classe média conservadora que elegeu Collor, FHC e um Sarney da vida bateu palmas e que sente saudades do regime autoritário da década de 60 e de 70. Perdeu o senso da justiça, da participação e da solidariedade. Torcem o nariz quando abrem as janelas de seus partamentos quando assiste o crescimento desefreado da favelização, da invasão do espaço público
André (30/10/2009 - 15h12)
O problema, Márcia, é que uma parte da classe média foi cooptada pelo sonho neoliberal. Quer passear em Miami, ver Cats em Nova York e comprar bolsas Louis Vutton. A classe média brasileira, que sempre teve grande vocação para a breguice, tornou-se menos solidária com a perspectiva da ascensão social proporcionada pela nova fase de crescimento econômico em que o Brasil entrou nesta década. O Brasil do Lula, quem diria, também é um Brasil menos solidário e mais individualista.